A dor que ninguém vê… e que o Brasil finalmente começa a reconhecer

Você acorda cansada. Sente dor no corpo inteiro. Vai ao médico, faz exame, e o resultado vem: tudo normal. Mas a dor continua. Todo dia. Sem pausa, sem explicação aparente, sem fim à vista.

Essa é a realidade de cerca de 7 milhões de brasileiros que convivem com a fibromialgia, a maioria mulheres. Uma síndrome marcada por dor crônica generalizada que não aparece em nenhum exame de sangue, nenhuma tomografia, nenhum raio-x. E é justamente por isso que quem sofre frequentemente ouve que é “frescura”, “coisa da cabeça” ou “estresse demais”. A família não entende. O empregador não acredita. E o sistema de saúde, muitas vezes, também não sabe como ajudar.

Não é frescura. A dor é real. Ela compromete o trabalho, o sono, os relacionamentos e a saúde mental de quem vive com ela todos os dias; e merece ser levada a sério.

Nos últimos meses, o tema ganhou visibilidade inédita no Brasil. A novela das nove trouxe uma personagem com fibromialgia que retrata com fidelidade a angústia do diagnóstico tardio. Personalidades públicas como Carol Castro e Deborah Blando abriram o coração sobre o que é viver com essa condição. As redes sociais se encheram de relatos de pessoas que, pela primeira vez, viram sua dor representada e reconhecida.

Visibilidade importa. Mas visibilidade não basta.

Enquanto o debate chegava às telas e às timelines, eu trabalhava para que ele chegasse também onde realmente precisa estar: na lei. Em fevereiro de 2024, apresentei o Projeto de Lei 336/24, com um objetivo claro: garantir que o SUS adotasse o tratamento da dor crônica como política de saúde pública e que os profissionais de saúde recebessem formação adequada para reconhecer e tratar essa condição. Como disse à época da votação na Câmara: milhões de pessoas sofrem com dor crônica, mas faltam profissionais capacitados para tratá-la — porque eles simplesmente não recebem a devida formação nas escolas. Isso precisava mudar.

Em outubro de 2024, o projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados. Em maio de 2026, pelo Senado Federal. E em junho de 2026, foi sancionado pelo presidente da República, tornando-se a Lei 15.422/2026. A nova lei garante a toda pessoa com dor crônica o direito ao atendimento integral pelo SUS, com informação prévia sobre os riscos e efeitos adversos dos tratamentos. E institui o dia 5 de julho como o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica, representado pela cor verde. Uma data para que o poder público, anualmente, leve esse debate a toda a sociedade brasileira.

É uma vitória. Mas é só o começo.

A fibromialgia e outras formas de dor crônica ainda carregam o peso do estigma, da demora no diagnóstico e da falta de acesso a tratamento multidisciplinar de qualidade. Muitos pacientes seguem sozinhos nessa luta — sem apoio da família, sem compreensão do sistema, sem esperança de melhora.

Meu compromisso é que essa realidade mude. Que o 5 de julho se torne uma data de conscientização real, capaz de educar profissionais, informar famílias e acolher pacientes. Que o SUS cumpra o que a lei determina. E que nenhuma pessoa precise mais ouvir que a sua dor não existe. Porque ela existe. E merece cuidado, atenção e respeito.

Bia Kicis, deputada federal (PL-DF)

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